Sentindo na pele – Descrição de como é o cansaço em cada modalidade.

As três modalidades do triathlon adquirem um sentimento diferente quando se chega ao seu limite.  Cada modalidade desse esporte, individualmente, leva o corpo a um desgaste particular, embora as três sejam realizadas por grandes grupos musculares e levem os batimentos cardíacos ao máximo.

A natação é mais perfeccionista, o ciclismo um pouco bruto e a corrida “finésse”. Portanto prefiro começar na ordem inversa.  A corrida.

Dentre as modalidades citadas nenhuma vence uma força maior do que a corrida x força gravitacional. O corpo tende a ser levado para cima e para baixo em movimentos contra a lei da gravidade. Não temos auxílio nenhum para propulsão além de nossos pés.  O corpo na realidade tende a subir e descer, mas os mais privilegiados não fazem nada a não ser deslizar horizontalmente. Somente as pernas sobem e descem enquanto do quadril acima fica a mesma distância do chão.

Aqui a sensação é de fadiga. Os músculos suportam mais o próprio peso a cada passada. A amplitude do movimento é forçada bastante. Passadas largas, rápidas e eficientes. Digo que sofrer correndo é “finésse” porque é uma arte também. Pode ser um movimento bruto, pesado e cheio de dor aparente, como pode ser um exemplo de fluidez por movimentos elásticos.  A diferença nisso é o quanto você já correu. Mas o sentimento é sempre esse:  Peito arfando, batimentos batendo na garganta e passadas e passadas.

Se estiver numa boa fase, as passadas não se alteram muito, sendo eficientes apesar do desgaste orgânico tremendo. Já os pouco treinados ficam com movimentos menores, fadigados e isso os leva a diminuírem ainda mais a velocidade. Ou seja, treino é essencial para postura que significa velocidade.  Esse é um esporte que desgasta a nível muscular, articular e orgânico.  Treinos longos são duros pra musculatura. Treinos curtos para o cardiorrespiratório. Maratona para os dois.

O ciclismo é bruto porque dói por bastante tempo. A velocidade é muito maior que os outros esportes e o tempo que se aguenta sofrendo também.  Podem ser minutos de explosão e pernas inchadas, como podem ser horas e horas no limite.  Quem delimita isso é a distância a ser percorrida e sua mente. Todos aguentam sofrer por bastante tempo desde que estejam alimentados e mantenham hidratação e alimentação.  Os mais treinados colocam muito mais potência, mas o sofrimento é bastante similar.  É bruto sim, mas isso não significa pouca técnica. Esta é uma grande aliada em todas as horas em cima da bicicleta.

A sensação de sofrer pedalando é conhecida:  pernas queimando, batimentos muito acelerados, e grande força mental para continuar. Porém algumas pedaladas com menos potência são o suficiente para melhorar sua sensação e poder ir  até o limite novamente. Isso pode durar até 1h30 ou 2h. A partir daí as pernas já não são as mesmas… Ao tentar posição em pé de ataque, as coxas hesitam, falham, atestam o cansaço acumulado. Organicamente é possível estar bem, dando o limite,  mas há um decréscimo normal da potência.   Para aguentar ficar no limite devemos treinar esse sentimento e melhorado gradativamente. As serras são importantes para chegar nesse limite depois de um longo período. Força o atleta a imprimir bastante potência já cansado e isso é ótimo. Afinal o melhor ciclista normalmente foi aquele que passou mais tempo nesse limite tênue entre a exaustão completa e um  esforço controlado. Um esporte que dói. Não machuca tanto as articulações como a corrida, mas leva o atleta ao nível de exaustão completa de uma forma única. Os ciclistas de voltas clássicas, a meu ver, são os exemplos máximos no esporte de desgaste físico e mental.

A natação é o esporte mais difícil em termos de consistência. Não se nada bem ao acaso, são inúmeras horas, dias, meses e anos treinando. O nível de coordenação muscular e conhecimento de cada parte do corpo são significativos. Um dedo que não esteja alinhado é algo que já atrapalha. Um músculo que era para estar relaxado e fica contraído  significa  perda de potência, má coordenação e pouca transferência de potência do corpo na água. Um tempo de 0,3 segundos entre as braçadas pode desacelerar muito sua velocidade, mesmo que todos ou seus outros atributos sejam perfeitos… Por isso é um esporte tão técnico e difícil.

 

Sofrer na água pode ser um desespero. Braços e pernas ficam inchados, sem transmissão do pensamento coerente. Parecem como se feitos de borracha e a respiração fica intensa. Inda piorada pelo fato que estamos com a boca dentro da água. Força, eficiência, treino, coordenação e autoconhecimento estão ligados à sua performance.

Uma boa dose de ritmo é necessário aqui para não sofrer com os sintomas acima numa prova de triathlon. Para isso é importante posicionar-se bem, nadar próximo a velocidade que seu corpo permite e aplicar a força de maneira mais coordenada e eficiente possível. Lembre-se que qualquer desperdício aqui significa muito mais tempo final. Se assim proceder e se manter na faixa controlável de dor, sua cabeça ainda conseguirá mandar no seu corpo e você poderá aproveitar o momento. É um esporte perfeccionista, mas aqueles que não forem, basta treinar qualquer estilo com boa orientação que se ganha muita velocidade. Mas tem que treinar e se conhecer, ninguém pode resolver isso por você. Contudo, podem o auxiliar mostrando seus defeitos.

O triathlon, portanto, pode ter todos os sintomas acima mencionados. Um pouco menos intensamente que os esportes isoladamente, mas a sensação é muito próxima. A particularidade é que a corrida na areia entre as voltas de natação (normalmente duas) são excruciantes. Falta coordenação, força, calor, agonia… Depois se acostuma, mas é sempre muito difícil essa parte.  Já a 1ª e a 2ª transição  é esquisito ao iniciar no triathlon;  as pernas parecem bobas, mas com a prática de transições isso some e fica até gostoso trocar o esporte.

No triathlon, cãibras e outras particularidades ligadas à desidratação que podem fazer o seu corpo sofrer muito além do normal e isso deve ser evitado ao máximo.  É um esporte vigoroso, inteligente e cansativo. Precisa de muito treino e grande força de vontade. Define seu corpo e sua mente fica perspicaz com autoconhecimento: a inteligência em sentir seu corpo em diversas maneiras possíveis. Torna-o mais forte, mas vivo e depois você passa para as outras coisas que vivencia na vida.

Guilherme Manocchio