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O CICLISTA PETER STETINA, duas vezes campeão norte-americano de ciclismo de estrada e que hoje pedala pela equipe Garmin-Cervélo, recentemente adotou um dos rituais pré-corrida mais bizarros do esporte: congelar a si mesmo o mais que puder. Antes de cada tiro de largada, Peter bebe raspadinhas de gelo, espalha bolsas de gelo pelo corpo e, como se isso não bastasse, ainda se enrola em toalhas molhadas. “Eu tento me esfriar o máximo possível”, diz o atleta. “Dessa forma, não me superaqueço tão rápido.” Ele não está sozinho nessa onda que à primeira vista pode parecer estranha.

Num esforço para controlar a temperatura corporal, ciclistas, triatletas, corredores e até mesmo pilotos de corrida começaram a tomar garrafas e mais garrafas de água gelada, a cobrir seus braços com Liquid Ice (um creme mentolado que resfria a pele) e a ligar ventiladores na cara. Alguns chegam até a enrolar uma meia-calça cheia de gelo em volta do pescoço.

O princípio básico é simples: a temperatura dos órgãos centrais da maioria das pessoas – especificamente o fígado, os rins e os intestinos – aumentam acima de 38°C durante atividades físicas. Quando isso acontece, água e sangue começam a abandonar os músculos e correr para a pele, numa tentativa de resfriar o corpo. O resultado é uma depleção (diminuição da quantidade de líquidos) e desidratação dos músculos, causando fadiga. Em muitos esportistas, o aquecimento dos órgãos ocorre rapidamente – alguns alcançam o limite de 38°C após apenas 20 ou 30 minutos de exercício. A boa notícia é que estudos recentes demonstraram que o resfriamento antecipado pode atrasar significativamente esse processo.

“Atletas de endurance que realizam o pré-resfriamento conseguem controlar a temperatura corporal e manter um desempenho máximo por um período 10% a 20% mais longo do que aqueles que não usam o método”, diz Stacy Sims, fisiologista do esporte da Universidade de Stanford, nos EUA, e uma das maiores autoridades norte-americanas em termorregulação.

O triatleta australiano Craig Alexander, que venceu o Ironman do Havaí três vezes (inclusive em 2011) e que ilustra nossa reportagem de capa sobre a modalidade, testou os efeitos da hidratação na temperatura central do corpo e afirma ter conseguido melhorar seu desempenho no último Ironman do Havaí simplesmente mantendo o corpo resfriado. Para isso, ele bebeu durante a prova água fria e raspadinhas, daí engoliu um termômetro microscópico e monitorou sua temperatura central num aparelho portátil que levou consigo. “O que mais me chamou a atenção é que fazendo isso você não se desidrata tão rapidamente porque não transpira tanto”, diz Craig.

Tudo isso parece simples demais? E é mesmo. Enquanto a agência espacial Nasa confirmou os efeitos dessa ciência ainda em 1986, a comunidade esportiva, normalmente ávida por experimentar qualquer teoria (mesmo que não comprovada), foi lenta para perceber seus benefícios. Para os treinadores e esportistas, gelo era para depois de um grande esforço ou para cuidar de lesões. Finalmente estudos recentes comprovaram que o pré-resfriamento é poderoso, e aí a comunidade de endurance decidiu aderir em massa à tendência.
EM AGOSTO DE 2011, Stacy Sims publicou um relatório demonstrando que atletas que praticam esportes de potência, como levantamento de peso ou escalada em rocha, também se beneficiam com o pré-resfriamento. Ela descobriu que pessoas que tomaram água resfriada a 4°C conseguiam saltar 15% mais longe do que quando bebiam água a temperatura ambiente. Em outro estudo norte-americano, publicado em junho pelo Centers for Disease Control (Centros de Controle de Doenças), pesquisadores descobriram que a cabeça, os antebraços, a parte interna das coxas e o pescoço são as áreas que melhor respondem ao resfriamento externo. Esse estudo também revelou que os coletes de resfriamento, equipamento popular oferecido agora por várias empresas esperando ganhar um dinheiro com essa moda, são inúteis. “Eles não funcionam. Isso porque o melhor jeito de baixar a temperatura corporal de fora para dentro é resfriando as áreas com vasos sanguíneos mais próximos à superfície da pele”, afirma Aitor Coca, fisiologista do centro.

O ciclista norte-americano Jeff Louder, da equipe BMC, já sabe disso há tempos. No Commerce Bank International Championship, campeonato que rola na Filadélfia, a região central do seu corpo chegou a 37,7°C. Para resfriá-la, Jeff colocou gelo diretamente na virilha – “bem na artéria femoral, para que o sangue resfriado fosse bombeado diretamente para o meu core”, conta ele. O ciclista diz que o método transformou pedaladas infernalmente quentes em esforços confortáveis.

Tudo o que foi escrito acima não impedirá que você passe da barreira dos 38°C de vez em quando. Trata-se de algo inevitável durante provas longas. Aitor Coca diz que é bem fácil saber se o seu core está superaquecido. Se for verão, você vai suar para caramba e logo sentirá fadiga e uma piora no desempenho. Já no inverno, ficará com a pele fria e as mãos inchadas. A fisiologista Stacy Sims também desenvolveu um teste para corredores e ciclistas que querem saber se sua temperatura foi parar nas alturas. “Se sua frequência cardíaca ficar estável ou aumentar, mas a produção de energia em cima da bike ou o ritmo da corrida diminuir, provavelmente você está superaquecendo. É hora de se refrescar”, explica. Uma recomendação dela? “Nada como uma boa e velha raspadinha bem gelada.”
>> Freezer antiinflamatório
QUANDO O SPRINTISTA NORTE-AMERICANO Justin Gatlin, medalhista olímpico em 2004, chegou ao World Outdoor Track and Field Championships (campeonato mundial de atletismo em pistas abertas), em agosto do ano passado, com congelamento nos pés, uma obscura técnica de recuperação chamada de crioterapia do corpo inteiro (conhecida pela sigla em inglês WBC, de whole-body cryotherapy) ganhou os holofotes. O método consiste em entrar numa criossauna – uma câmara metálica do tamanho de um boxe de chuveiro onde é bombeado ar resfriado com nitrogênio líquido, o que baixa a temperatura ambiente a 71°C negativos – e está na crista da onda: todo mundo já experimentou, incluindo o ex-maratonista cubano Alberto Salazar até a equipe de basquete Dallas Mavericks, da NBA. Justin Gatlin também experimentou – só que entrou na criossauna vestindo meias úmidas, e deu no que deu.

A WBC, desenvolvida no Japão durante os anos 70, acabou sendo usada para tudo, desde recuperação rápida de lesões e diminuição das dores musculares, até, paradoxalmente, aumento do desejo sexual. E, graças à proliferação das criossaunas, a Millennium Ice, maior empresa oferecendo o produto nos Estados Unidos, espalhou mais de 12 unidades pelo país – com atletas amadores pagando até US$ 75 por uma sessão.

A ideia na WBC é que o ar incrivelmente gelado faça com que o fluxo sanguíneo saia dos músculos e da pele, para que o corpo use-o para proteger o core. Isso reduz, em tese, a inflamação muscular. Porém a ciência ainda está avaliando o modismo. O estudo mais recente sobre a WBC, publicado em julho de 2011, revelou que uma proteína-chave que acompanha danos musculares permaneceu no mesmo nível em pacientes que foram tratados com WBC após um treino intensivo, mas aumentou naqueles que não receberam a terapia. A questão agora é se certificar se a inibição dos sinais inflamatórios poderia, na verdade, ser pior para o atleta. “Nada sabemos dos efeitos da crioterapia em longo prazo”, diz François Bieuzen, cientista do Instituto de Esporte, Expertise e Desempenho da França e co-autor do estudo. “Mas é fato que essa terapia pode ser útil durante um campeonato como o Tour de France, onde o objetivo principal é limitar a fadiga, e não melhorar diretamente a performance.” Quanto ao aumento da libido, provavelmente é melhor ficar com a famosa pílula azul.
—RYAN KROGH

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de janeiro de 2012