[framed_right img=http://www.manocchio.com.br/site/wp-content/uploads/2012/05/10o-no-IM-Africa.jpg][/framed_right]

Do que são feitos os campeões? Como o metal mais quente para ser forjado, os campeões precisam de muito fogo, calor extremo e suor.
Se as melhores coisas da vida fossem fáceis. Todos teriam. Se diamantes fossem comuns, seu valor seria muito baixo. Se competir em triathlon fosse algo fácil, garanto que muitos não teriam prazer nisso.

Sem passar por inúmeras dificuldades, incontáveis decepções e frustrações, pensamentos negativos e grandes cargas de esforço o outro lado não seria tão especcial. A alegria de enfim ter uma realização no esporte certamente é como um diamante valioso.
Como muitos de vocês sabem estive competindo no Ironman da África do Sul neste final de semana. Estou extremamente feliz por ter escolhido essa prova no meu calendário. Mais contente ainda por ter sido em 2012, o “dia do triathlon em um furacão” em Port Elizabeth. Digo novamente: estou muito feliz que tenha escolhido essa prova! Parece que agora eu subi um novo degrau em relação ao conhecimento pessoal.
O medo pelo que me aguardava era gigante. Seis horas da manhã me dava calafrios ao olhar meu material sendo fustigado pela tempestade. E eu parado, em pé, mãos congeladas de frio. Pensava se seria possível o que estava acontecendo… Olhei para as minhas rodas de carbono (disco traseira e 50mm dianteira) já sabendo ser má escolha para situação. Isso me deu mais receio.
A água do mar, além de absurdamente agitava, estava congelante. E eu feliz por estar ali, apesar de tudo. Afinal os atletas ao meu lado não sabiam o que tinha passado para estar ali. Já tinha aguentado muito treino e algumas decepções no caminho. O Ivan Albano disse “largada tensa essa hein!”, puxa realmente. Não dava pra ouvir muita coisa com o vento alto desse jeito e o mar agitado à nossa frente.
O fato foi que não estive muito bem no último mês. Não por vontade própria. Mas a verdade é que treinei tanto que meu corpo quase entrou em colapso. Experimentei uma queda sensível de rendimento no treinamento por algum tempo. Passei a descansar mais. Duas semanas antes de iniciar a prova fiquei doente a ponto de ir para o hospital. Meu corpo estava debilitado, alguns exames de sangue mostrando perda de massa corporal. Depois uma infecção intestinal me derrubou por exatos 5 dias. Nesse tempo não pude treinar nada. Não conseguia. Tomei antibiótico e finalmente as coisas começaram a melhorar. Engraçado que me senti estranho ao tentar voltar a treinar, com mais sinais de desgaste muscular (CK-MB elevadíssimos) e um ironman em vista em 15 dias. Meu médico enfim me liberou para realizar a prova. Excelente! Só não sabia ele, nem eu, que seria o Ironman realizado nas piores condições climáticas possíveis, sendo um dos mais difíceis que se teve notícia.
O que me leva novamente a tremer na largada: Preocupação. Vontade. Medo. Coragem. Sensações se misturavam em meu íntimo. Finalmente largamos.
Nadamos em uma máquina de lavar. 1h depois saí da água, consciente, tranquilo. O ciclismo logo me assustou. Não comecei muito bem, sendo ultrapassado por vários atletas (saí em 8º do mar). Minha bike balançava bastante. Muito mesmo. Fiz muita força por 130km, estava em 13º . O problema foram os últimos 50km.
Minhas forças se extinguiam rapidamente. Gostaria de saber o que estava acontecendo comigo, justamente quando o vento estava ainda mais forte. Tão forte que nas descidas eu mais segurava a bike do que pedalava. Joelho, ombros… Já doía tudo, quase já não tinha mais forças nos braços pra segurar a bike, nem nas pernas para pedalar. Tudo era válido para manter a bike na pista enquanto minha bike saía do chão e eu dançava na pista de um lado para o outro. Rajadas de 70km/h: assim que estava.
Enfim cheguei à transição. Feliz por não ter caído e por ter terminado a etapa, mas um 18º lugar no momento não era a coisa mais interessante do mundo. Enfim, meus dois primeiros quilômetros de corrida não foram bons. Doía tudo, eu parecia lento, meu pulmão queimava… Procurei me acalmar e me alimentar bem… Logo me senti melhor. Enfim, no km 4 estava melhor.
No km 10 eu estava excepcional, calmo como nunca. Sensação boa, tudo passando rápido e tranquilo. Corria cada km mais rápido. 43min nos 10km, 41min nos próximos 10, 42min do 20 ao 30km… E as coisas pesaram novamente. Ainda me sentia alimentado e com energia, mas simplesmente estava demais para um dia. Precisava parar, mas não iria. De jeito nenhum.
12km a mais e eu chegaria, eu pensava. E depois de algum tempo, 11km. “Demorou esse km hein”. Quando faltavam 4km e meu quadríceps já estavam lastimáveis, eu sabia que nada de errado poderia acontecer mais. Tinha vento a favor no final, e ajudava muito, mesmo na corrida. Certamente iria completar a prova. Não sabia que lugar estava, mas sabia que tinha passado bastante gente. Agora a chegada estava próxima e eu lembrei do que tinha passado no treino, nas horas que sofri e no que eu estava prestes a fazer.
Adrenalina pura! Chegada!
Como é bom chegar num ironman.
Uma onda de emoção invadiu meu corpo. Eu sofri para estar aqui, longe de todos e por minha conta num país estranho. Com um treino “atrapalhado” no ultimo mês, com doenças e outras dificuldades. Enfim a recompensa. 10º lugar. Incrível, levando-se em conta tudo isso. Não abaixei a cabeça, enfrentei as dificuldades com o olhar alto, pronto pra tentar e experimentar meu físico. “Graças que terminou. Graças que eu consegui!”. É bom cruzar ter a certeza que meu psicológico é muito mais forte do que eu jamais pensei que fosse.
Chorei na chegada e chorei por uma hora depois. Se eu lembro de como foi, tenho vontade de chorar de volta. Porque foi a pior dificuldade que enfrentei na carreira. E porque venci e cumpri o que me propus fazer.
Também vi muitos outros exemplos lá em Port Elizabeth. Muitos atletas completaram: 1800 inscritos 1553 largaram, 1200 chegaram. Resumindo, 4 em cada 6 atletas conseguiram chegar ao final… Não porque 32% das pessoas fossem fracas, mas porque as outras 68% realmente foram muito corajosas. Foram forjadas por extremas temperaturas e a magia da realização pessoal cruzou seus corações. Lindo de se ver, um verdadeiro espírito Ironman.
Guilherme Manocchio